outras coisas #2

setembro 5, 2009

deslocado.

Quando faz frio e calor ao mesmo tempo. Eu nem sei em qual estação estamos. Sentamos num banco e ficamos olhando – um outro vazio, tudo é vazio, um vazio imenso e mudo.

eu não sei falar e muito menos pedir. Talvez seja por isso que sou assaltado o tempo todo nessa cidade.

Mas de repente é uma coisa meio carioca a arte de falar o tempo todo e não dizer nada.

O ponto é que as estações não passam mais; o vazio está cheio; só nos resta começar a dizer alguma coisa.

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Podem me dizer e me pedir e me rogar para que fale das belezas desta cidade. Podem até ficar de mal sem citar o carnaval. Mas o bom mesmo é a nossa comida. Na volta ao caoa carioca, um pouco em pânico com tamanha zona, me refugiei no que já conhecia: comida.

Rodízio Japonês: Na Europa é muito caro, portanto nada melhor que comer até passar mal por 37 reais num domingo. Cinquenta sashimis de salmão, 45 de atum, fora os adendos da comida chinesa e os enrolados à la Brasil que inventaram. No Downtown tem uns quantos restaurantes por este preço e como não ligo pra nome e peixe cru é peixe cru em qualquer lugar, fui feliz por algumas horas.

Churrasco: Rodízio de carne também não existe no velho continente. No dia seguinte a chegada, fui diretamente ao Montana – também na Barra. Não é um Porcão, mas quebra um galho danado. “Ô chefe, me arruma uma costela de boi, um cupim e aquela picanha mal passada com dois dedos de gordura”. Evidente que depois da comilança não podia mover um músculo.

Comida da mamãe: “Filho, pode escolher o almoço”. Diante de tamanho desafio, não titubiei: “quero duas rabadas só pra mim, regadas no agrião”. Só relaxei quando terminei de comer todo o meu pedido, o que só foi acontecer na noite do dia seguinte.

Comida da avó: “Vou preparar uma quibada”. Verdade que comi coisas parecidas na Turquia e Grécia, mas nada comparado ao carinho quando se está cozinhando. Quibe cru, frito, berinjela, enroladinho de folha de uva, pasta de grão de bico (o delicioso humus), mijadara (arroz com lentilha e cebola frita), tabule e muito pão árabe. Resultado três horas de boca cheia…

No centro: o centro é um grande sebo de comida. Com paciência é possível encontrar coisas fantásticas. Na travessa do Ouvidor, existe um restaurante chamado Esquimó. Por doze reais se come bem (comida caseira) regado a suco de cajú! Só se valoriza isso, quando se passa quatro anos sem…Para completar o quadro, um suco de limão no bar em frente. O suquinho natural ainda é servido em copos de papel, o que é um charme a mais.

Planos futuros:

Bunda de Fora: restaurante de frutos do mar na Perimetral onde é servida a melhor sopa Leão Veloso da cidade.
Cadegue (ou seja lá como se escreve isso): em Benfica se encontra um cozido que só comendo pra entender.
Feira de São Cristovão: carne de sol de picanha, nada melhor para um sábado chuvoso.

Dizem por aí que recordar é viver, eu prefiro “comer é viver”

Mythology (Andrew Motion)

Earth’s axle creaks; the year jolts on; the trees
begin to slip their brittle leaves, their flakes of rust;
and darkness takes the edge off daylight, not
because it wants to – never that. Because it must.

And you? Your life was not your own- to keep
or lose. Beside the river, swerving underground,
the future tracked you, snapping at your heels:
Diana, breathless, hunted by your own quick hounds

coisas #1

julho 1, 2009

O Rio é violento, quente, caótico e está em guerra.

E, como em toda guerra, coisas acontecem – coisas pequenas com um peso capaz de parar tudo por alguns instantes.

§

Quando nos encontramos no meio de uma guerra, no meio de violências tão desmedidas e sem propósito, duas coisas acontecem:

1. temos que sobreviver;

2. temos que enfrentar nossos demônios.

Talvez o ítem 1 dependa radicalmente do ítem 2.

§

Experiência íntima: eu sempre vivi no Rio. 28 anos indo pra 29. Sempre tive que fazer o que fosse necessário pra sobreviver – isso do ponto de vista de um cara da classe média, ok? sei das coisas piores mas escrevo de onde estou: uma cadeira confortável na madrugada do jardim botânico. Mas sempre tive que sobreviver. E essa guerra na cidade maravilhosa – seja pessoal, social, econômica, afetiva – me trouxe muitos desencontros. Para não ser injusto, encontrei meu grupo de sobreviventes, com cicatrizes e histórias (sim, com H) de guerras muito parecidas.

§

Há pouco tempo parece que essa guerra finalmente me trouxe um encontro. Num dia inusitado, por causa de uma música desconhecida, fui parar num antigo bordel em Laranjeiras, numa festa também inusitada.  E, culpa da ausência de isqueiro, tudo mudou – ou tudo está mudando.

Sobreviver é uma espécie de arte: você aprende aos poucos, descobre os lugares onde se esconder, aprende em quem confiar, os lugares seguros e os falsos, enfim…  a questão é que eu tenho enfrentado os meus demônios.  São pequenas guerras violentas que deixam um cenário devastado para trás e um grupo de sobreviventes de pé.

São pequenas guerras solitárias.

Mas hoje existe alguém para cuidar dos ferimentos.

§

É um encontro pequeno numa cidade em guerra; mas é uma pausa nas minhas guerras.

As festas juninas de Santiago de Compostela aniquilam qualquer nostalgia. Sardinhas, queimada, fogueira, churrasco, música de gaita.. Uma delicia.

Na foto a nossa fogueira improvisada, numa cidade onde a prefeitura dá permissão para fazer fogo! A noite foi de fato a mais longa: teve comida, muitas bebidas, e até banho no chafariz dos peregrinos. É incrível ver como os galegos mantém as tradições.

Antes da meia-noite, escreve-se três pedidos que são jogados na fogueira. Depois da meia-noite o ritual da queimada com um conjuro para espantar as bruxas. Pura poesia o texto:

“Averno de satán e belcebú,
lume dos cadáveres ardentes,
corpos mutilados dos indecentes,
peidos dos infernais cus,
muxido da mar embravecida.
Barriga inútil da muller solteira,
falar dos gatos que andan á xaneira,

guedella porca da cabra mal parida.”

fogueira_1

E uma correção: confundi caña com cachaça. Caña na verdade não é feita de cana-de-açúcar, mas de restos de vinho que produzem uma bebida transparente, igualmente forte.

“No centro do Rio de Janeiro, bem ali no Largo da Carioca, uma arena improvisada é montada todos os domingos. As arquibancadas são feitas de caixotes de madeira e a arena em si é de terra batida com direito a uma variedade incrível de vermes e os mais diferentes formatos de cocô de cachorro.

Neste espaço, acontece o maior evento semanal da cidade, o “Olé Ninõ” (tradução livre). Logo após os jogos de futebol do Maracanã, os cariocas, que vivem em tendas sobre as árvores e que ainda não chegaram à idade do ferro, lotam os espaços para assistir aquele incrível espetáculo dos trópicos.

Funciona assim: dez crianças entre 10 e 15 anos são empurradas a chicotadas para dentro da arena. Um homem armado e com três kilos de doce espera o ataque mortal da criançada. O objetivo é não se deixar tocar por elas. Para ajudar, o tal homem pode usar os pés para afastá-las com chutes e rasteiras, mas em nenhuma hipótese pode usar as mãos, como no futebol e no futevôlei.

O baile deve durar cinco minutos contados pelo relógio histórico da praça. Terminado este tempo, o cabra deve matar as crianças, mas só pode usar uma bala por cabeça, de preferência, é claro, na cabeça. Quando um tiro é o suficiente para a tarefa, o atirador ganha as orelhas e um dedo do pé do mortinho. Se conseguir matar todas as crianças usando uma bala para cada uma delas, ganha todas as orelhas, além das mãozinhas e ainda sai carregado nos braços do povo.

Quando acaba o show, os cariocas voltam às suas tendas para comer um papagaio ou uma capivara na lenha. Depois, dançam para afastar as chuvas de janeiro e vão direto para as esteiras ou folhas de bananeira, pois amanhã a galera tem que ir pra floresta caçar. ”

Quando acabei de contar esta história, alguém disse: “Deve ser uma tradição oriunda das touradas” e perguntou: “O governo apóia esses eventos?” Deu vontade de chorar.

o frio deslocado do Rio

junho 25, 2009

mais um post meio teste.

§

inverno ou quase.

não sei lidar com frio. Depois de Berlin,  jurei que nunca mais sentiria frio no Rio de Janeiro – algo como Scarlet jurando que não passaria fome… Mas está frio. é sempre assim: frio, rio; inverno, inferno… essas coisas da língua.

§

na verdade, queria ter afastado as bruxas. ou ter uma opinião sobre a queda do diploma. não sei… voltar é realmente um verbo estranho – um tricky verb, se eu posso. e uma ação mais estranha ainda. porque, me parece, que nunca se volta pelo mesmo lugar. algo meio alice.

Recebi um e-mail semana passada repleto de receitas de docinhos de São João. Cocada, bolo de milho, canjica.. Obra de uma amiga que, como se diz por aqui nessas terras de Galícia, estava me puteando. Morrendo de saudades do cheiro de broa recém-saída com café de avó, eu fui dormir nostálgica..
Mas eis que na semana passada descubro que a Festa de São João é uma das mais tradicionais por aqui. Não tem broa, mas tem sardinha, churrasco, crema de Orujo e fogueiras! E ainda quemada, uma poção feita com caña, ou cachaça em bom português, café e frutas. E que se bebe depois de ler um feitiço para espantar as bruxas.
Se voltar viva depois de beber quemada e saltar fogueira na noite de hoje, a mais curta do ano – que seguramente pode se transformar na mais longa- volto pra contar como foi.

Tríade

junho 19, 2009

E caiu o diploma e a volta ao Brasil e os medos do passado.

Não que o passado assombre, mas o medo de voltar ao ponto onde comecei meu presente. Que cansaço ter que pensar tudo de novo.

E a volta ao Brasil? O problema não é o país, a questão está no verbo: voltar é realmente um verbo sacana. Voltar é regredir ou progredir? (só vendo Lost pra sair do senso comum).

E o diploma…no final voltou-se (olha ele aí de novo) ao que era antes. Melhor para os bons, pior para os mediocres. Para muitos jornalistas, não mudará nada, mas para os sindicatos….

Rio de Janeiro, uma e qualquer coisa da manhã. Frio.

Depois de um boteco, seis garrafas de cerveja e muitas músicas num iPod afetivo, meu quarto parece se deslocar – tudo perde propriedade durante a madrugada, dimensões e outras coisas.

§

escrever pra manter os demônios no inferno. parece isso a função. ou simplesmente pra não ter um câncer. ou pra ser lido. não importa.

início.